Francisco Piria.


Único alquimista latino-americano, Francisco Piria foi o empresário mais insólito do Uruguai. Começando do nada chegou a possuir a maior fortuna de sua época e ser o personagem mais popular. Escreveu livros de antecipação e praticou a Alquimia. Deixou um legado que merece ser conhecido.

A 110 quilômetros de Montevidéu, capital do Uruguai, se ergue a cidade de balnearia de Piriápolis. Criado em 1890 onde não havia nada mais que bancos de areia. Com o tempo se transformou no principal balneário do país e o favorito dos turistas da vizinha Argentina. É a única cidade no mundo criada por um particular, alguém que apostava alto e que dotou de toda a infra-estrutura necessária, inclusive um porto, uma via férrea, hotéis - um deles foi o mais importante da América do Sul, em sua época - e uma série de indústrias de forma que a cidade era, como desejava seu criador, auto-sustentável.

Nascido em Montevidéu a 21 de agosto de 1847, filho de imigrantes italianos, ficou órfão de pai aos 5 anos. Sua mãe o envia para a Itália, para a cidade de Diannomarino, nas proximidades de Gênova onde é criado pelo seu tio, um monge jesuíta.

Regressa ao Uruguai quando tinha 12 anos e em seguida começa a trabalhar. A princípio como caixeiro viajante, para anos depois instalar o próprio negócio: uma casa de remates de mercadorias variadas. O mesmo não só se encarregou do remate em sim, mas também da publicidade e promoção do mesmo, começando no país uma forma de propagandística peculiar que faria escola.

Em 1873, aos 27 anos, muda de ramo e se dedica a corretagem de terrenos. Por aquele tempo, o Uruguai recebeu milhares de imigrantes europeus - especialmente italianos e espanhóis - e Piria lhes deu a oportunidade de ter seu próprio terreno, o qual vendia em pequenas prestações de até 100 mensalidades. Piria comprou chácaras nos arredores da cidade, os subdividiu em lotes, criou ruas, praças, etc. e se formava um novo bairro. Deste modo dúzias de bairros foram criados por ele, e foi chamado de "o segundo fundador de Montevidéu".

Suas vendas eram uma verdadeira festa. Piria alugava carruagens - às vezes chegando a 50 - e levava as pessoas de graça até o local de venda. Uma vez lá, antes da venda, oferecia um verdadeiro show, com bandas de música, espetáculos, comida e bebida fogos de artifício, etc. Algo verdadeiramente incomum no Montevidéu pacato de então.

A sua fortuna estava crescendo até que, em 1890, depois de um de suas viagens para Europa onde tinha visitado os principais balneários franceses, decide apostar na indústria turística, algo inexplorado no Uruguai. Viaja ao Este do país, onde compra 2.700 quarteirões no mar e inicia seu projeto de cidade balneária. Planta 40.000 árvores, planta vinhas, castanheiro, tabaco; começa a exploração de granitos, constrói um porto, uma via férrea, rampas, ruas, hotéis e tudo o mais necessário para o funcionamento do lugar. Então vende terrenos pelo mesmo sistema usado em Montevidéu e se encarrega de promover a balneário na Argentina. Piriápolis se torna um sucesso e no amor de sua vida: aos 86 anos, em completa lucidez e estado físico, Piria comprou pessoalmente terrenos naquela área. Morreu em 1933, no meio de projeto de criar um novo balneário na Argentina.

Como se suas atividades múltiplas não tivessem sido bastante, Piria também teve tempo para cultivar seu espírito. Uma investigação meticulosa levada a cabo por um de seus descendentes conduziu à possibilidade que Piria conhecia e praticava a velha ciência da Alquimia. Nas páginas seguintes veremos como o seu trabalho arquitetônico reflete a faceta desconhecida do visionário.

É suposto que este conhecimento foi transmitido por seu tio, o monge jesuíta, dado que os Jesuítas foram os herdeiros dos conhecimentos que os Templários deixaram, entre os quais estava a Alquimia. Não se deseja aqui convencer de nada, nem fazer um tratado sobre o tema, mas, simplesmente, expor os elementos e deixar as conclusões para cada um. O primeiro vínculo com a alquimia em Piriápolis é o nome que Piria deu originalmente para a cidade: Heliópolis, "a cidade do sol ". de fato, o nome de Piriápolis era uma invenção dos jornalistas inventaram antes que Piria construísse a cidade, só possuía um esboço e o local era um grande areal. Por outro lado, uma coisa era criar um bairro e outra, muito diferente, uma cidade inteira. Ninguém acreditava e deste nome foi o que ficou.

Mitologicamente Heliópolis é a cidade onde a ave Fênix, emblemático símbolo da regeneração pelo fogo, tema central na alquimia, para o qual também se chama "labor solis", a Obra do Sol. O sol é associado ao ouro, tanto ao ouro material, como o ouro imaterial - ou sol interior - que deve ser extraído da escória. Chama a atenção também que ambas as obras alquímicas fundamentais do Século de XX, "O Mistério das Catedrais" e "As Mansões Filosofais", de Fulcanelli, as quais são dedicadas aos irmãos de Heliópolis. Com respeito a estes livros, quem seguir o mesmo método de Fulcanelli e "ler" Piriápolis como as catedrais e mansões francesas se surpreenderá ao desvendar esta " leitura". E de fato, este é o método que foi seguido nestes páginas, as quais são um adianto de um futuro livro.

A Era de Aquário

Piriápolis também poderia ser chamado com justiça "a cidade de Aquário", porque são várias as insinuações para este signo e, principalmente, à era astrológica em que estamos vivendo. O planeta regente de Aquário é o Urano e o símbolo deste planeta é um H, com um pequeno círculo no travessão da mesma. Vendo uma foto aérea do Argentino Hotel veremos que a sua planta tem precisamente essa forma. O círculo mencionado corresponde no hotel ao lugar a escada que une os diferentes blocos, onde se encontra um vitral com golfinhos, outro símbolo comumente relacionado a Aquário. Por outro lado, nos jardins que adornam a frente do hotel, vemos a representação mais freqüente deste signo: a menina com o lançador.

Finalmente, se pega um plano de Piriápolis ou uma fotografia aérea, e se unem com uma linha os diferentes pontos onde se encontram os principais símbolos alusivos à alquimia, nos surpreendemos ao ver que o desenho corresponde perfeitamente com a constelação de Aquário. Nada em Piriápolis é feito ao acaso e se soubermos lê-los, tudo nos indica algo.

Símbolos Templários

Na fachada do hotel Piriápolis que dá para o Argentino, ainda se encontram vestígios da calçada original, nela vemos vários desenhos, entre os quais se destaca a cruz templária. Estes desenhos estes desenhos foram feitos com pedras negras, brancas e vermelhas, as cores fundamentais da obra alquímica, cores pelas quais passam isto a "pedra dos filósofos" até se tornar a "pedra filosofal". - A cruz dos Templários é uma recordação das origens do conhecimento alquímico de Piria, recebida de seu tio, monge jesuíta, em Dianomarino. Também é uma alusão à fonte da Praça Principal, em Montevidéu cujos caminhos de acesso, vistos de cima tem o desenho desta cruz. 

Ao longo da rampa vemos, a cada tantos metros, umas colunas terminadas por uma esfera. Esta esfera é de fato um mapa-múndi. Embora a erosão tenha atuado ao longo dos anos, em alguns ainda restam o contorno dos continentes, mas se olha com atenção, nós notaremos algo diferente: não é a forma atual dos continentes. Erro ou falta de atenção?

O neto de Piria que durante décadas estudou o simbolismo deixado pelo seu avô, chegou à conclusão de que essas esferas estão representado os continentes tal qual se verão depois da catástrofe que sofrerá a Terra, ao chegar nosso sistema solar ao extremo da Galáxia, fato que repete a cada 12.000 anos aproximadamente. Em um dos seus livros diz Piria: "Não basta ver, é necessário ser o vidente". Em "O que será meu país dentro de 200 anos", escrito por ele em 1898, Piria menciona vários elementos que não existiram no seu tempo e que hoje eles são comuns: a música funcional, o ar condicionado e até o fax. Algumas anedotas contadas por este autor, confirmam a capacidade de Piria para antever o futuro.

Por isto vale a pena levar em consideração que esta coisa se refere a uma futura (iminente?) catástrofe, porque não só nos alerta dela, como também nos indica a área que provavelmente não será afetada. Na sua investigação, o neto de Piria descobriu isso no estado da Rivera, ao norte do Uruguai, existe um pequeno obelisco de cerca de cinco metros de altura que tem em sua base somente uma inscrição: PIRIA. E se perguntou o que fazia ali, no meio do campo? Anos depois, em alguns papéis de Piria, encontrou a solução. Este obelisco marca o vértice superior de um triângulo cujo ângulo direito estava em Piriápolis e o esquerdo na Fonte da Praça Principal de Montevidéu. Segundo Piria esta área é a mais segura, por sua estabilidade, o que garantia efeitos mínimos ante os movimentos telúricos que acontecerão em certo momento.

Os Grifos

Diante do Argentino Hotel se encontram duas figuras conhecidas comumente como os " leões ". Tecnicamente, são chamados de grifos, figura emblemática mistura de leão e águia, que simboliza o combate de entre ambos os seres, que finalmente se fundem em um só: o leão alado. O leão é um símbolo da coisa terrena, o corporal, o material, enquanto a águia representa o espiritual, o elevado. Tudo na alquimia aponta ao ser humano, portanto este combate matéria-espírito tem lugar no homem mesmo, entre seus planos aparentemente irreconciliáveis. Mas se depois daquela luta alcança o equilíbrio, ascende a um terceiro estado de consciência. Depois disto, o leão perde a juba, mas ganha asas. Isto nos indica que sem perder nem desprezar o estado físico não se pode voar para os planos superiores da consciência e da realidade. Se bem que a representação deste combate é entre um leão e uma águia, outros autores, como Cyrano de Bergerac, o mostram como a luta entre  rêmora e a salamandra, mas o significado é o mesmo.

O Vitral

O vitral que se encontra no Argentino Hotel, tem, além de sua beleza estética, símbolos com uma mensagem definida para a vida pessoal de cada um. Vemos ali uma fonte em cujo pilar central estão golfinhos. O golfinho é o símbolo de ser humano. Apesar de viver na água, não é um peixe, mas um mamífero, e então, deveria ascender à superfície para respirar, caso contrário se afoga.

O ser humano é igual: embora viva em um ambiente físico e material deve, periodicamente, ascender para o plano espiritual, para respirar de sua essência, caso contrário também se afoga. Se trata de equilibrar o físico e o espiritual, e em nenhum caso negar um plano em função do outro. É tão negativo ser totalmente materialista como totalmente espiritual. O equilíbrio é a chave da sabedoria. Também se vê neste vitral uma cascata de rosas. A rosa, tal qual conhecemos hoje, foi criação de um alquimista sufí a partir do escoromujo, ou rosa silvestre, e se tornaram símbolo do pedra filosofal e de como o alquimista pode aperfeiçoar a Natureza. É, também, símbolo dos desejos, e aqui, ao estar encadeado, Piria nos recorda que nós temos que saber encadear nossos desejos. Ninguém alcança uma meta de primeira e geralmente colocamos sub-metas no caminho da meta principal. Mas não somente deveríamos encadear e organizar nossos desejos, como também deveríamos descartar todos aqueles que não são compatíveis com nossa meta e nos podem desviar dela. Uma lição boa que Piria soube colocar em prática em tudo o que fez.

As Fontes do Touro e de Vênus

A estátua do touro, localizada na colina de mesmo nome, é um símbolo da primeira operação da alquimia: "extrair a água da pedra", operação para a que confundiu muitos estudiosos ao longo do tempo. Embora tenha conseqüências concretas na alquimia química, no aspecto pessoal significa a extração do corpo astral - ou corpo sutil - que se encontra preso no corpo físico. Este corpo se simboliza como a "água" e é com esta água que se vai lavar e branquear a "pedra", para purificar-la. O touro é um símbolo do corpo físico e ao jorrar a água pela boca alude à operação mencionada. Mas: quando é o momento mais propício para realizar esta operação? Em que momento a própria natureza nos ajuda a isto? A chave se encontra na fonte de Vênus que Piria próximo a do Touro. Vênus é o símbolo da primavera, o tempo em que a terra brota e regenera. Os textos dizem falam a respeito desta primeira operação alquímica: " Que os astros e Vênus e a Diana crescente sejam propícios": se referindo à estação de primavera e a lua crescente. Sendo então este o melhor momento para extrair a água da pedra.

A Igreja

A Igreja de Piriápolis, localizada na rota que une a balneário com a cidade de Pan de Azúcar, foi projetada pelo próprio Piria, financiada por ele e foi doada à Cúria, mas esta nunca aceitou, razão pela qual jamais funcionou como igreja e teve, ao longo dos anos, usos diversos, sem fins religiosos. Hoje está quase em ruínas. A razão para a qual a Cúria não quis aceitar, foi porque Piria a desenhou segundo as antigas "Leis da Índia", por isso foi orientada para o Leste, para o nascer do sol, além de possuir vários símbolos alquímicos em sua estrutura original. Embora a Igreja como instituição saiba muito bem - principalmente nas altas esferas - o que é a alquimia, não reconhece isto abertamente e aceitar a igreja tal qual estava era uma forma de reconhecimento que não se podia permitir.

De acordo com seus documentos pessoais, Piria havia projetado de tal forma que, no dia do equinócio de primavera, um raio de sol atravessaria determinado ponto do vitral que adornariam a roseta frontal e o raio de luz iluminaria um ponto do altar onde ele deixaria para um pouco de "pó de projeção" - a substância final que permite fazer as transmutações - de forma que quem descobrisse, poderia comprovar a realidade da alquimia.

Isto coincide com a tradição mencionada por Fulcanelli em "O mistério das Catedrais": deixar uma prova material que o alquimista alcançou o seu propósito. Finalmente Piria deixou a prova em sua escrivaninha na La Industrial como um peso de papéis. Tempos depois este fato foi descoberto por seu neto.

O Castelo

O castelo foi construído em 1897 pelo engenheiro Aquiles Monzani, com o desenho do próprio Piria. Verdadeira "mansão filosofal", usando as palavras de Fulcanelli, hoje é um pálido reflexo do esplendor que teve em sua época. Boa parte dos símbolos desapareceu. A estrada de acesso era ladeada por estátuas de deidades gregas que representaram os planetas e os metais da alquimia. A fonte consagrada a Netuno com sua estátua correspondente, foi destruída: ela mostrava a via usada por Piria em seus trabalhos alquímicos: a chamada "via úmida", a ,qual dura exatamente um ano, o tempo que Piria morou permanentemente no castelo,: uma vez alcançada a seu meta não voltou mais a ele, hospedando-se em alguns de seus hotéis. O porão onde era o seu laboratório foi trancado.

A parte superior do castelo era usada como lugar de meditação e para suas projeções astrais pelo tempo e espaço. No interior do castelo chama a atenção um porta na parede: aparentemente não conduz a nenhum lugar, mas é de fato uma lembrança de que as portas para outros mundos estão neste e que é necessário ter suficiente atenção para "vê-las". Os cães localizados na frente da porta principal são lembretes, cães de caça, e entre as suas patas eles têm uma mochila de caçador e uma lebre morta. A lebre, em alquimia, é o símbolo do da "matéria-prima", também conhecida como "mercúrio". Ambos os nomes denotam algo difícil de agarrar, evasivo. Porém, os cães puderam caçá-lo, eles conseguiram "fixar a matéria". E a chave disto está na localização original destes cães: na porta do estábulo do castelo, pois é ali que se encontra o material necessário para a fixação mencionada.

Outro símbolo importante são as figuras que coroam as colunas da entrada. Dois dragões entrelaçados que formam um X. O xis é o símbolo do fogo, elemento fundamental na execução da "Grande Obra". Estas figuras surgem entre as folhas de acanto e vão até a extremidade das colunas. A coluna representa o tubo de ensaio. Quando se leva a matéria-prima ao fogo no tubo de ensaio, isto cristaliza. Os seus cristais, vistos ao microscópio, se assemelham as folhas da mencionada planta. Aqui nós falamos de alquimia de laboratório, e quem tem conhecimento profundo de química achará simples identificar esta matéria mencionada nos textos com uma infinidade de nomes, porém nunca com o verdadeiro.

Os jardins do castelo ainda conservam várias esculturas em que aparece a figura do "diabo", porém trata-se de Bafonet, figura emblemática dos Templários que, mal interpretada, deram motivos à acusação de que eles adoravam o Satanás e pelo qual terminaram injustamente na fogueira. Sobre a parte direita do castelo, Piria plantou várias iúcas africanas que somente crescem lá. Intentos de transplantá-las para outro lugar falharam. A razão é que não se tratam iúcas comuns, porque Piria os tratou com a chamada "pedra vegetal" - outros dos produtos derivados da pedra filosofal - isso permite a perfeição de toda espécie vegetal.

O Palácio

Em 1915 Piria adquiriu em Montevidéu, o terreno onde ergueria o seu Palácio, desenhado por ele e executado pelo arquiteto Camilo Gardelle, formado pela Escola de belas artes de Paris. Ao contrário da austeridade do seu castelo, o palácio contém arte por todos os lados, além de também ser um livro aberto para a sismologia alquímica.

Sede do Tribunal Supremo de Justiça desde 1954, ano em que foi adquirido pelo Estado. O edifício foi declarado, em 1975, Monumento Histórico Nacional, o que garantiu sua perfeita conservação. Já na entrada do palácio encontramos um importante símbolo nos dois vasos que flanqueiam a porta: são chamados por Fulcanelli de "vaso natural" e "vaso da Arte ". É uma alusão ao corpo físico, tal qual o cria a Natureza, e para o tal corpo perfectivo que cria a Arte alquímica. Na fachada que dá para a Praça Cagancha, as janelas do porão foram adornadas com rosas e insinuam que a base, o fundamento de tudo o que fez Piria foi a alquimia, principalmente no aspecto filosófico e vivencial. O grade que cerca o palácio é coroada em cada um de seus pilares por uma rosa, mas desta vez é um botão. Este é um símbolo da esperança e do fato que o melhor ainda está sempre por vir, apesar das aparências. Pouca gente sabe que o momento mais escuro da noite não é as três da manhã, ou mesmo à meia-noite, mas um momento antes de começar a clarear. A natureza nos indica assim que não é necessário se desesperar, e que quando nós estamos na escuridão mais negra (chamada de "a noite da alma"), de fato a luz é íntima. Paciência e esperança, pois, de mãos dadas o positivo não se fará esperar.