Cipriano e Justina.

Histórico

Cipriano foi imortalizado pela Igreja Católica conhecido como o 'papa africano'. Celebrado dia 2 de outubro na cristandade, dedicou boa parte de sua vida às ciências ocultas. Martirizado e canonizado, sua popularidade excedeu a fé cristã. Devido a seu famoso livro negro, um compilado de rituais de magia, sua representação entre a magia e a cristandade reforça suam imagem como a imagem da dualidade da fé humana - a relação entre deus e o diabo.

Filho de pais pagãos, ricos, nasceu na Antioquia, região situada entre a Síria e a Arábia. Desde cedo foi induzido por sua família ao estudo da feitiçaria e das ciências ocultas, como a Alquimia, a astrologia, a adivinhação e diversas modalidades de magia. Aos 30 anos, chega à Babilônia no intuito de conhecer a cultura ocultista dos caldeus, quando conheceu Évora, com quem teve a oportunidade de aprimorar seus estudos e técnica de premonição. Após a morte de Évora, Cipriano herdou seus manuscritos.

Conheceu Justina, educada por seus pais nas tradições pagãs e que mais tarde viria a ser santa, consagrando e conservando sua virgindade, convertendo-se a uma vida de orações e ao cristianismo. A pedido de Aglaide, um jovem pretendente da moça, também de origem pagã, Cipriano a envolveu em tentações através da magia, para que a jovem abandonasse suas reservas ao prazer mundano, entretanto não teve êxito. Influenciado por seu amigo cristão Eusébio, se converteu ao cristianismo, queimando seus manuscritos de feitiçaria e doando suas riquezas aos pobres, casando-se com Justina.

Em um de seus livros, após sua conversão, discorre em um de seus capítulos que se deparou certa noite com 14 fantasmas, segundo o mesmo, bruxas que imploravam ajuda. Cipriano lhes informou que havia se arrependido da vida na magia e que passara a ser temente a Jesus Cristo, caindo em sono profundo, sonhando que a oração do Anjo Custódio, que o livraria daqueles fantasmas. Diz-se que auxiliado pela oração de Custódio e de Gregório, esconjurou e libertou a alma das bruxas.

As obras de Cipriano e Justina se espalharam rapidamente e logo foram perseguidos, presos e torturados por Diocleciano, por negarem suas naturezas pagãs, sendo lançados numa caldeira fervente de banha e cera.

Atanásio, discípulo de Cipriano, julgou que não havia sinais de dores nos dois, supondo os sortilégios lançados por Cipriano durante as torturas. Então, o jovem se achou capaz do mesmo e se lançou à caldeira, sendo dizimado em poucos segundos. Cipriano e Justine, entretanto, não.

No dia 26 de setembro ambos foram decapitados, às margens do Rio Galo da Micomédia, com seus corpos expostos por 6 dias, até que um grupo de cristãos os recolheu, levando-os para Roma, deixando-os aos cuidados de uma senhora de nome Rufina, que encaminhou seus restos mortais para a Basílica de São João.

É importante saber que seu livro mais conhecido, que discorre sobre a magia e sua arte, fora redigido após sua conversão, traduzido do hebraico para o latim, já que não foi o próprio Cipriano que compilou seus próprios textos. Ao longo dos anos, o conteúdo sofreu alterações significativas, havendo adaptações e atualizações de acordo com as possibilidades e desejos contemporâneos, pondo em dúvida a fidelidade das informações, exaltando a vitória do bem sobre o mal e à luz do cristianismo. Porém, existem grandes diferenças em conteúdo entre o que se publicou como versão original e seus manuscritos, muitos dos quais destruídos por ele mesmo antes de sua conversão.

Seu livro, seja o de capa preta, prateada ou cinza, ambos com conteúdos de base similares, expressam a magia pela óptica da feitiçaria, não da bruxaria, como muitos confundem, mas com alterações de acordo com interesses das épocas, é indicado hoje como um livro de magia negra e culto satânico, quando na verdade se trata de um breve compêndio da magia oculta pelo lado sombrio e pouco compreendido pelos homens.

                       

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A “Confissão de Cipriano”

A “Confissão do Cipriano” é uma ampliação infeliz da “Conversão”. Nesso relato Cipriano toma a palavra para explicar seu relacionamento com o domínio, as feitiçarias e os encantamentos que praticava. O autor da narração acumula as histórias de artes mágicas e às vezes cai no ridículo; assim, por exemplo, refere que Aglaides tomou a forma de um pássaro que se colocou sobre um telhado a fim de espreitar Justina; todavia, logo que conseguiu ver a moça, perdeu a qualidade de pássaro (que ele adquirira por feitiçaria); retomou a sua condição de homem e experimentou muita dificuldade para descer do telhado.

A “Paixão de Cipriano”

Esta narração responde a necessidade de terminar os relatos anteriores, no qual o autor recorre a traços comuns das demais narrações. Indica, por exemplo, que Cipriano e Justina foram presos por ordem do Conde Eutólmio e levados para Damasco. Após um interrogatório, Cipriano foi dilacerado por unhas do ferro, enquanto Justina era chicoteada ferozmente. Contudo permaneceram insensíveis. Levados de novo ao tribunal, foram condenados a morrer numa caldeira de óleo fervente; este, porém, se tornou para eles ocasião de um banho reconfortador; ao verificá-lo, um sacerdote pagão acusou-os de magia e aproximou-se do fogo da caldeira, que imediatamente o devorou. Finalmente o juiz terá enviado os dois mártires para Nicomédia, onde residia o Imperador Dioclociano. Este mandou que fossem decapitados; o carrasco executou a sentença juntando a Cipriano e Justina um certo Teoctisto, que passava por perto. Os seus cadáveres foram expostos às feras, que os deixaram intactos. Seis dias depois, marinheiros cristãos levaram os corpos para Roma, onde uma certa Rufina lhes deu honrosa sepultura.

Curiosidades

a) Nas listas dos bispos de Antioquia não só encontram nem Optato, nem Antímio, nem Cipriano.

b) O culto dos mártires sempre esteve ligado aos túmulos respectivos. Não se conhece na antiguidade ou na arqueologia e sepulcro do S. Cipriano, virgem e mártir. O autor da “Paixão de Cipriano”, para fugir à objeção de que não há sepultura de S. Cipriano em Antioquia, imaginou que o corpo de herói tenha sido trasladado para Roma; todavia em Roma não se conhecia o túmulo de S. Cipriano na antiguidade. Somente na Idade Média julgaram os cristãos ter encontrado as relíquias de Cipriano e Justina em Roma, perto do Batistério de Latrão; foi então que a festa dos dois “mártires” foi introduzida na Liturgia de Roma.

c) Distinga-se de S. Cipriano. bispo do Cartago, grande escritor cristão, o lendário personagem dito S. Cipriano mago. 

Como surgiram as estórias sobre Cipriano e Justina

Tais narrações retomam dois temas caros aos antigos cristãos: o do feiticeiro que vende a sua alma ao diabo, mas se converte, e o da virgem que triunfa do homem que a quer seduzir. Os antigos se compraziam em ouvir ou ler relatos desse tipo; daí a confecção da estória de Cipriano mago convertido, e Justina. virgem vitoriosa. Essa estima da temática fez que a lenda encontrasse logo grande aceitação, de mais a mais que utilizava nomes famosos (misturados anacronicamente num só relato): Optato era um bispo do Norte da África, citado nas Atas das Santas Mártires Perpétuas e Felicidade; Antímio era um bispo mártir da Nicomédia; Cipriano foi um grande bispa do Cartago (anterior aos outros bispos citados); Edésio foi um filósofo. Todos esses personagens eram famosos em Antioquia no século IV (época em que se julga tenha tido origem a “Conversão do Cipriano”). Também Justa e  Justina eram nomes assaz difundidos na antiguidade. Os outros nomes dos relatos encontram-se todos em obras da literatura dos primeiros séculos.

Muito contribuiu para dar valor a estória em pauta a confusão feita do Cipriano mago com S. Cipriano, bispo do Cartago, caro à Igreja antiga. Houve relatos, hoje perdidos, que tentavam fundir a “vida de Cipriano mago” com a história real do S. Cipriano do Cartago, como se este tivesse sido feiticeiro. S. Gregório, bispo do Nazianzo, na Ásia Menor, proferiu um sermão em 379, no qual se servia das narrações espúrias relativas a S. Cipriano, bispo do Cartago e mago; pouco depois, o poeta latino Prudêncio se deixou levar pela mesma ilusão.

Aos poucos o crédito dado a essas versões todas fez que os nomes de Cipriano e Justina constassem dos Martirológios antigos a partir do século IV. A contar dessa época foram também aparecendo “Preces do Cipriano”, utilizadas como fórmulas quase mágicas; deste núcleo fez-se aos poucos o “Livro Poderoso do S. Cipriano mago”, que nada tem que ver com dados históricos nem com a fé católica, de fato.

Fontes de Pesquisa: