Yo-ho! (os Ghoun-nams)


Apesar da ilustração quase lúdica, os ladrões que aterrorizavam o Atlântico entre os séculos 16 e 18 passavam longe de ser o estereotipado nos filmes. De diversas nacionalidades, em especial ingleses, mantinham um código de conduta.

Um de seus expoentes é John Phillips, de 1724, sobre o qual as crenças levaram ao perfil atual, cujos dentes podres eram comuns, frequentes por conta do escorbuto. Miticamente usava brincos argolados nas orelhas porque se supunha que melhoraria a visão, uma vez que os furos seguiam à risca os velhos e conhecidos pontos de acupuntura. Abaixo, alguns signos (muitos já estereotipados) bastante curiosos:

  • Perna de pau: Substituíam pernas amputadas. No código de Phillips, cada uma valia 400 dólares espanhóis, moeda comum à época.
  • Tatuagens: Marcavam grandes feitos e o nome das namoradas.
  • Bandana  e Chapéu: o chapéu de pluma se popularizou graças ao inglês Bartholomew Roberts, morto em 1722. A bandana protegia o pirata dos piolhos.
  • Bandeira: A caveira servia para amedrontar. Mas o maior artifício era a surpresa. Portanto, de fato preferiam bandeiras neutras para abordar outros navios sem alarde.
  • Tapa-olho: Encobria ferimentos e era usado para aguçar a visão. Com um olho tapado, é mais fácil se adaptar a diferentes luminosidades. Entretanto, não há relatos históricos de olhos de vidro.
  • Brinco de argola: Achavam que melhoravam a visão. Eram usados na orelha seguindo o esquema da acupuntura e geralmente na orelha esquerda, para não serem arrancados no disparo de armas de fogo.
  • Bichos: O papagaio foi inspirado em Long John Silver, de A Ilha do Tesouro. De fato, qualquer animal seria comido pela tripulação.
  • Correntes de ouro: Moda nas colônias americanas, portanto comuns entre os piratas. Era o jeito de manter algo de valor no próprio corpo.
  • Gancho: Não há relatos históricos que comprovem o uso.

Piratas em destaque:

William Kidd (Escocês, 1645-1701)

Wiiliam Kidd era um elegante escocês que já havia sido um cidadão líder em Nova York. Ele se envolveu ativamente na construção da Igreja da Trindade e depois começou sua carreira como um corsário, originalmente enviado para livrar os mares dos piratas. No entanto, ele acabou se tornando um, mas com certa relutância.

Ele foi eleito capitão pirata por sua tripulação e seu maior “feito” na área foi atacar uma embarcação da East India Company. Quando ele soube que estava sendo caçado por esse ato, ele enterrou um pouco de seu tesouro na Ilha Gardiner, antecipando a sua utilidade como instrumento de negociação.

No entanto, ele foi capturado em Boston e enviado para a Inglaterra para julgamento. Ele foi condenado à morte e morreu depois de duas tentativas frustradas na forca. Nas primeiras vezes, a corda arrebentou. Seu corpo foi exposto e pendurado por correntes na beira do Rio Tâmisa.

Edward Teach – o Barba Negra - (Inglês, 1680-1718)

Embora tenha havido piratas mais bem-sucedidos, o Barba Negra foi um dos mais conhecidos, além de ter sido amplamente temido no seu tempo. Ele comandou quatro navios e tinha um exército pirata de 300 pessoas no auge da sua carreira. Barba derrotou o famoso navio de guerra, o HMS "Scarborough", em uma batalha marítima.

Ele era conhecido por enfrentar as batalhas segurando duas espadas, tendo ainda várias facas e pistolas no cinto e em um tipo de colete. Ele capturou mais de quarenta navios mercantes no Caribe e sem vacilar matou muitos dos prisioneiros reféns.

Barba Negra também era conhecido por ser muito mulherengo, mas, embora ele tivesse muitas mulheres não oficiais, ele foi casado apenas com uma menina de 16 anos — diz a lenda que ele a ofereceu como um presente para sua equipe depois que ela tentou “corrigir” a seu jeito de ser. Barba foi morto decapitado após uma batalha com a Marinha Real, e sua cabeça foi levada como um aviso para outros piratas para ser exposta no Rio Hampton.

Bartholomew Roberts "Black Bart" (Inglês, 1682-1722)

A tripulação de Roberts admirava a sua coragem aventureira — chamando-o de "à prova de pistola” —, embora ele tivesse entrado na pirataria de forma relutante, pois, quando mais jovem, foi vítima de piratas durante um ataque a um navio em que ele era oficial de bordo.

Roberts saqueou mais de quatrocentos navios, um registro grandioso, e capitaneou navios bem protegidos em cada jornada. Ele morreu em uma batalha vigorosa contra o capitão britânico Chaloner Ogle e deixou uma legião de admiradores.

Henry Every – O Grande Ben (Inglês, 1653- ano de morte desconhecido)

Henry começou sua carreira naval da Marinha Real britânica. Ele atuou em vários navios antes de se juntar a uma missão conhecida como a Expedição espanhola em 1693. Ele tornou-se capitão pirata através de um motim, levando a sua fama como um dos mais temidos e bem-sucedidos do Mar Vermelho.

Apesar de ele não ter muitos navios, os dois que ele capturou estavam entre os melhores do Oceano Índico (sendo um deles um navio do tesouro, cheio de ouro e joias). Após conseguir uma grande riqueza, Henry Every se aposentou, mas ele continuou a ser caçado por toda parte e o seu verdadeiro paradeiro no momento da sua morte permanece desconhecido.

Anne Bonny (Irlandesa, 1700-1782)

Quando viajou para o Novo Mundo com a sua família, Anne se apaixonou e se casou com um marinheiro pobre chamado James Bonny. No entanto, ela foi ficando decepcionada com a falta de coragem do marido e começou a procurar a companhia de homens valentes em Nassau.

Entre esses homens, estava "Calico Jack" Rackham, o capitão de um navio pirata. Ela se juntou a sua tripulação enquanto agia e se vestia como um homem. Assim, ela lutou sob seu comando, e junto com a sua amiga pirata Mary Read, ela persuadiu a tripulação para travar batalhas ainda mais sangrentas e se tornou uma verdadeira pirata.

No entanto, ela foi capturada com tripulação de Rackham e condenada à morte. Tanto Anne quanto Mary Read alegou gravidez na prisão enquanto aguardavam a sentença, e as suas penas de morte não foram executadas. Ninguém sabe ao certo como a famosa pirata morreu, embora haja especulações de que ela tenha voltado para casa com o marido ou com o pai.

Sir Henry Morgan (Inglês, 1635-1688)

O capitão Morgan foi um dos piratas mais famosos que aterrorizaram as colônias do Caribe espanhol no final de 1600. Discretamente sancionado pela Inglaterra, Morgan tornou-se o chefe da frota jamaicana e com sucesso minou o domínio espanhol, prejudicando a normalidade nas Índias Ocidentais.

Ele pode ter saqueado mais de quatrocentos navios ao longo de sua carreira pirata. Sua maior conquista foi tomar a rica cidade do Panamá com trinta navios e 1,2 mil homens. Foi devido a essa incursão, que ele foi preso e levado de volta para a Inglaterra. Depois, ele conseguiu retornar ao Caribe e viveu na Jamaica até o resto da sua vida.  

Ching Shih (Chinesa, 1785-1844)

Também conhecida como Cheng I Sao, Ching Shih não foi apenas a mais bem-sucedida de todas as piratas do sexo feminino, ela também foi a mais fascinante. Ching ganhou a igualdade com o marido e assumiu o seu posto após o seu falecimento.

Bonita e ex-prostituta, a pirata controlou mais de 1.500 navios com 80.000 homens, saqueando navios ao longo da costa do Mar do Sul da China, ao mesmo tempo em que impunha um rigoroso código de conduta sobre a sua tripulação.

Quando o governo chinês ofereceu-lhe anistia pirata universal em troca de paz, ela aceitou. Seus piratas, por outro lado, foram capazes de manter suas riquezas e lhes foram dados empregos militares. Depois disso, ela viveu a sua vida no comando de um cassino e um bordel.


Outros piratas "de verdade":

Roberto Cofresí

Pirata mais famoso de Porto Rico, com direito até a estátua em Cabo Rojo, Roberto Cofresí foi uma espécie de Robin Hood no Caribe, no final do século 18. El Pirata Cofresí, como era chamado, foi um dos piratas de maior sucesso contra as forças armadas espanholas, criando uma extensa rede de informantes civis que o ajudavam a escapar. Mas todo fora-da-lei tem seu fim: ele acabou sendo capturado e executado em 1825, aos 33 anos.

Henry Every

Every atuava como pirata nos oceanos Atlântico e Índico em meados de 1690. Ele ficou conhecido por seus contemporâneos como “Rei dos Piratas”. Isso porque Henry foi um dos únicos piratas da história que conseguiu se aposentar com suas pilhagens sem ser morto ou preso. Além disso, ele foi o capitão de um dos ataques piratas mais lucrativos da história: a captura de uma frota do império Mugal que fazia sua peregrinação anual à Mecca. A pilhagem rendeu cerca de 600 mil libras em joias e pedras preciosas.

Anne Dieu-le-Veut

Anne Dieu-le-Veut foi uma pirata francesa, também apelidada de Anne God-Wants (algo como “Vontade de Deus”, em tradução livre). Ela se casou com um pirata após a morte de seus dois primeiros maridos. Dieu-le-Veut era conhecida por ser corajosa e implacável. Anne foi uma das poucas mulheres piratas que não se disfarçava de homem – ao contrário das superstição, a presença de Anne era considerada boa sorte pela tripulação. Seu fim ainda é um mistério: sabe-se que ela foi capturada pelos ingleses e acabou ficando durante 3 anos na prisão, mas ninguém conhece o seu paradeiro depois disso.

Sir Francis Drake

Para os ingleses, Francis Drake era um cavaleiro condecorado pela Rainha Elizabeth I. Já para os espanhóis, ele era um odiado pirata. Tanto que o rei da Espanha chegou a oferecer uma recompensa de 20 mil ducados (mais de 6 milhões de dólares nos dias de hoje) pela sua cabeça. Sir Francis, conhecido também como El Draque, ajudou a derrotar a Invencível Armada Espanhola e foi o primeiro inglês a circunvagar a Terra. Seus espólios como corsário (uma espécie de pirata certificado, com autorização para pilhar navios e cidades de outros países) ajudaram a enriquecer a Coroa Britânica até sua morte por disenteria, aos 55 anos, em 1596.

Mary Read

Mary Read passou boa parte de sua vida disfarçada de homem. Fez parte do exército britânico e da Companhia das Índias. Quando a tripulação do navio que ela trabalhava se amotinou, Mary, disfarçada de Mark, se tornou pirata e parte do time de Calico Jack. Anne Bonny acabou se interessando por Mark, que teve que revelar sua verdadeira identidade para ela e o capitão Jack. Quando o navio foi capturado, Read também revelou estar grávida de um prisioneiro que era seu amante. Ela acabou morrendo em uma prisão jamaicana por complicações da gravidez.

John Rackham (Calico Jack)

John Rackham, mais conhecido como Calico Jack, foi um famoso pirata inglês no Caribe do século 18. Ele é muito conhecido porque a imagem de sua bandeira pirata (chamada de Jolly Roger) era uma caveira com duas espadas cruzadas – figura que ficou marcada como símbolo dos piratas na cultura popular. Além disso, também ganhou fama por ter duas mulheres formidáveis em sua tripulação – Anne Bonny e Mary Read. Ele foi capturado pelo ingleses sem oferecer resistência em 1720 e morreu enforcado.

Edward Teach "Blackbeard"

Se Calico Jack imortalizou a Jolly Roger com a caveira e duas espadas, o Barba Negra (Blackbeard) foi o responsável pelo estereótipo do pirata terrível, com aparência assustadora, a la Capitão Gancho. Edward Teach era inglês, mas, como muitos outros, fez sua fama como bandido implacável no Caribe, a bordo do navio Vingança da Rainha Ana. Ele acabou morto num combate contra as autoridades e reza a lenda que foram necessários 20 golpes de espada e cinco tiros para finalmente abatê-lo.

Fontes de pesquisa e leitura: Yo-ho! Historiografia Pirata, de Claude Monroe, O Grande Livro Das Histórias de Piratas e Corsários, de Joan Vinyoli e História Geral dos Piratas, do Capitão Charles Johnson