Licantropia I.

Desde o século 10 a.C. há referência sobre esse mito por um filósofo grego chamado Heródoto ao citar o "povo dos neuros", onde as pessoas assumiam à aparência de um lobo todos os anos por durante alguns dias. Porém, foi Petronious, autor romano da peça teatral "Satyricon" no ano 5 a.C., que combinou o fenômeno astronômico da lua cheia com à transformação de um homem em lobo, mas foi um outro autor romano - Ovídio, onde no ano 1 d.C. escreveu sobre o mito do rei Likaon, que teria desrespeitado o deus Júpiter ao lhe oferecer carne humana escondida num banquete e, então, Júpiter ao perceber à trama ficou extremamente furioso jogando uma maldição sobre Likaon transformando-o em um lobo, aí surgiu o termo "lykantropos"- aquele que vira lobo, onde esse termo também é usado posteriormente para designar uma doença, a licantropia.

Em termos históricos, foi na idade média que os lobisomens ficaram mais conhecidos e ganharam um "status" maligno na sociedade. Só na França onde era chamado de "loup-garou"- entre os anos de 1520 e 1630, relataram-se 30.000 casos, talvez o mais famoso seja o caso de Pierre Bourgot, um pastor que foi julgado em 1521 por uma série de assassinatos brutais de mulheres jovens , onde o mesmo declarou que se auto-transformava em lobo. Isso só para evidenciar que no século XVI milhares de pessoas foram acusadas de bruxaria e de serem lobisomens com práticas de canibalismo foram condenadas pela à inquisição e mortas na fogueira, sendo que a grande maioria eram camponeses - isso provavelmente associado com os graves problemas sócio-econômicos e desigualdades sociais, além da pobreza e miséria as inúmeras doenças e fome salientavam ainda mais à paranóia de lobisomens.

Naquela época na França, qualquer pessoa que tivesse muito pelo no corpo todo, com sombrancelhas grossas que se fundem, com as palmas das mãos muito ásperas e calejadas e com grandes olhos arregalados podia ser acusado de ser um lobisomem pela inquisição e, posteriormente condenado à morte ou à severos castigos, onde os crimes com extrema crueldade eram julgados equivocadamente como práticas de lobisomem.

Em 1573, uma aldeia francesa nas proximidades de Dôle foi "palco de terror" das atrocidades de um grande lobo que matou e devorou parcialmente dezenas de crianças, constatou-se que o mesmo animal tinha uma enorme semelhança facial com uma pessoa chamada Gilles Garnier, sendo preso o mesmo confessou sob tortura que fizera pacto com um espírito maligno da floresta onde lhe dera um líquido que, aplicado ao corpo, transformava-o em um lobo - após o julgamento foi queimado vivo.


Lycaon, filho de Pelasgo, rei da Arcádia, tentou matar Júpiter, seu hóspede duma noite. Foi transformado em lobo. Para conjurar tamanho castigo, os Árcades construíram um templo a Júpiter-Lyceo (do grego, Lycos, lobo). Na Grécia, vindo dessa origem mítica, registrou-se gravemente o fenômeno. Desaparecendo a forma de um suplício, surgiu a licantropia. Era uma moléstia. Durante o mês de Fevereiro, os licantropos pululavam. Heródoto assela-os em sua história. Em Roma, Pan era Luperco (do latim, Lupus, lobo). Daí as Lupercaes, festas votivas em Fevereiro, justamente comemoração solene dos Mortos entre os gregos... ... e a multiplicação de licantropos. Acca Laurentia, a loba, foi deificada. Em todas as estátuas e medalhas, signos e camafeus, era representada sob a forma lupina.
Para Pomponius Mela, os Neuros podiam transmudar-se em lobos. Os Neuros habitavam a Scythia, e, segundo Aristeus Proconnesius, Isigonus Nicaeiensis, Ctesias, Onescritus, Polystephanus e Hegesias, citados por Aulo Gello, era um país de assombros. Os Scythas eram antropófagos. Nas regiões vizinhas, moravam raças espantosas, desde os Arismaspes, que tinham um só olho no meio da testa como ciclopes, até os outros homens que possuíam os calcanhares às avessas, gênese dos Matuyus que o Padre Simão de Vasconcellos devia encontrar no Brasil. Vem a série dos firmes credores do licantropo. Foram Isocrates, Varrão (em Santo Agostinho), Heródoto, Pompinius Mela, Petrônio, e Plínio, o Antigo. Petrônio descreve detalhadamente a licantropia.
Pedem a Niceros, conviva do faustoso Trimalcion, uma narrativa de aventuras. Historia o interrogado que, tendo de ir a Capua, convidou um soldado valente, seu velho camarada. Era noite de lua. Atravessando um cemitério, o soldado conjurou as estrelas, despiu-se, pôs urina nas roupas e tornou-se lobo, uivando e correndo pelo mato. Niceros não pode recolher as roupas do companheiro porque haviam tomado a forma de pedras. Atemorizado, fugiu para casa de Melissa de Tarento. Esta contou-lhe o assalto de um grande lobo ao redil e subsequente luta com um fâmulo que ferira o animal no pescoço. No outro dia, Niceros encontrou o amigo nas mãos dum médico – tinha um profundo ferimento na nuca. Era um Versipelio, no dizer de Plínio.
A origem da lenda é naturalmente religiosa e comum ao Egito, aos Vedas, à Caldéia, às regiões da Ásia e África. Com o Império Romano espalhou-se a crendice, amalgamando outras, adaptando-se aos novos ambientes. É a repetição do caso de domínio contraproducente. O país vencedor é quase sempre influído pelo derrotado. Depois de Grécia vencida é que os Romanos conheceram a Hellade. Veio o Versipelio para Portugal com a conquista. Deve ter aí tomado o nome que hoje usa.
A licantropia deve ser de origem ética. Vingança de um ser divino em quem desobedeceu as leis sagradas de hospedagem. Os eternos viajantes gregos podiam ter posto curso a esta história antecipando pelo terror um melhor tratamento nas paragens visitadas. As narrativas de Platão, Ovídio e Pausanias sobre Licaon, tornaram-no tipo de mau hospedador. A justiça vinda do alto Olimpo caía sobre o crime de um príncipe na pessoa de um deus.
No Brasil, as complicadas teogonias selvagens exilam o versipelio. Criaram o Capelobo, animal fantástico, invulnerável, velocíssimo e perseguidor dos índios e caçadores ousados. O Capelobo é criado pelo ramo racial dos mamelucos. Não pode ser autóctone como o Anhangá e o Caipora. Para algumas tribos é o velho que já esqueceu a idade. Noutras, é um animal como o Tapuaiauara, misto de paquiderme e felino, com patas de anta e orelhas de cão. O licantropo grego, o versipelio latino, o loup-garou de França, o vou-kadlak dos Eslavos, o verfölfe alemão, o capelobo ameríndio, estão absolutamente irmanados com o Lobisomem sertanejo.
Em Portugal o lobisomem é o filho que nasce depois de uma série de sete filhas. Em geral fica pálido, doente, tristonho, cheio de manias, quase sempre geófago contumaz. Encontrando o lugar onde os animais se espolinham, o predestinado se espoja e “vira” lobisomem. Isto às terças ou sextas-feiras. Sob a pele do fenômeno, terá de correr as sete partidas do mundo, sete adros, sete vilas, sete outeiros, sete encruzilhadas. Ao terceiro cantar do galo retoma a forma humana. É de notar o uso de um número que a astrológica caldaica tornou fatídico – o 7. Para desencantá-lo é mister o signo de Salomão, a estrela de dois triângulos. Vendo-a, perde o veso das correrias. Podem matá-lo também. Invulnerável a tiro, é sensível a qualquer ferro aguçado. Quem manchar-se no sangue do lobisomem, herda o hábito.
Para o Sertão o lobisomem está fixado em dois modos: como castigo e como moléstia. A reminiscência de Licaon é patente no primeiro caso. Júpiter, pai dos homens, castigou um filho espúrio, fazendo-o lobo. O mau filho é candidato a lobisomem. O “doente” é pessoa apontada comumente. Magro, descarnado, vacilante, de olhos apagados e face decaída, o licantropo sertanejo é um tipo vulgar de opipalo, uma vítima da verminose, mais filho do helminto que de Belzebu. Em casos especiais, o malefício se opera determinado por uma lei de punição suprema. É o raríssimo incesto. O incestuoso ou seu descendente mais próximo, será lobisomem. Semelha à manceba do vigário que é a “Burrinha de Padre”, trotando pelos descampados, se, por funesto acaso o pároco esqueceu de amaldiçoá-la antes de celebrar missa.
O cerimonial para ser-se lobisomem é simples. Na noite da quinta para a sexta-feira, antes das 11 horas, o futuro loup-garou matuto dirige-se ao local onde os animais se espojam. Quase sempre na encruzilhada existe o capim machucado e revolto pelos irracionais preguiçando. Depois de despir-se, põe a roupa pelo avesso, dá sete nós na camisa e rola da esquerda para a direita, reunindo os pés e as mãos. Daí em diante, como na história de Petrônio, lupus factus est, ululare coepit, et in silvas fugit. Até o terceiro cantar do galo, o lobisomem galopa e rincha, berra e foge, espalhando terror. Ataca os caminhantes solitários para sugar-lhes o sangue. Vendo duas pessoas, esconde-se. Picando-o à faca, “quebram” o fado por aquela noite. É vulnerável a tiro. Some-se ouvindo o canto do galo. O galo, em todas as histórias e lendas sertanejas, é o libertador do medo, o vencedor das trevas, augúrio do Sol, arauto do dia longínquo. Não há fantasma ou alma penada que resista a seu canto sonoro. Curioso é lembrar-se que Apolônio de Tiana evocou a sombra de Aquiles e esta desapareceu após o galo ter cantado. Quando a coruja, o mocho e o corvo servem de emblemas às bruxarias e maldades, o galo é o símbolo da alegria, das forças sadias e votadas ao Bem. É ele, ancestralmente, o inimigo do Demônio." (Fonte: Licantropia Sertaneja, por Luís da Câmara Cascudo)