Marcab Navaugue, a turca.


Marcab Navaugue, a turca, é uma mulher desprendida de si mesma. Holística e maquiada, sempre fez questão de expressar em seus pequenos lábios desengonçados uma tênue linha de batom rouge, como se fosse vedete francesa. De olhos tingidos como nanquim e face rosada, mal escondia a tensão dos dias em seus seios empinados nos sutiens de alto bojo que usava quando adolescente, ainda à época da revista O Cruzeiro, e que agora se repetiam estilizados em roupinhas de tecido leve, coladas ao corpo como se frequentasse academia de bairro popular com fito isolante.

Por sinal, de isolante nada tinha sua índole e adorava ser chamada de 'a travessa' no colégio de freiras onde cursou o científico graças à bolsa conseguida com auxílio da tia, onde frisava as nuances de seu sotaque descompassado e atemporal, assistido nas negações das concordâncias nominal e verbal, não como revolta, mas como garantia de que se manteria à luz de seu povo.

Mãe solteira e admiradora de lojinhas de 1,99, construiu seu patrimônio rodopiando nos bailes alheios, geralmente seviciando bêbados, gigolôs e pais de família de boa conduta e gonorreia, quase todos socialmente aparentados, sem saber dos quais vieram seus filhos, aqueles, que andam por aí como potes de gel ambulantes, esticados até as pontas dos dedos, lacrando em si a origem às avessas da matriarca fuleira.