Licor de Marula.


LICOR DE MARULA
RICARDO BRANCO

O que se ama alheio a quem
Como em nada se ativesse à novidade que faz calor
E sopra o passado

Perto ou longe como um ventilador por trás da orelha
Como um calafrio na espinha da saudade
Abraçar-me, adaptar-me
Como num mute quase sonoro
Assumindo o gosto do contra
Do sinal fechado que nega o sim
Já estéril
Que não concretiza
Devora, abocanha

Já não rememoro os tempos que a mente constrói
Destruídos em solidão insana
Não fosse a paixão um upgrade da dor
Um novo modelo, ardor, algum resultado final
Como se todo dia fosse ano novo
Brinde inspirador que recomeça tentativas

A profilaxia da boca: beijo
Em dose qualquer que estimule o ar
O fogo que aquece
A terra que realiza
À água reservada ao equilíbrio do descanso

“Se se morrer de amor”
Em tempo de ideias caídas, quão maduras foram
Então a colheita das vontades, depois do plantio
Vale as experiências

As palavras que uso não são pra ser
Entendi(a)das
Sequer comentadas
São passeios como a loucura
Em você
Elogio do prazer à gosto da vontade
Fosse o tempo esperar algo mais que realidade

E de surreal temeridade
Experimentar-se no anseio do não pedido
O gosto da Marula na boca sorvido
Se conseguisse emudecer-se pelas mãos que agarram verdades
Para transformar o ego em melodia
Romântico, cru ou poesia
Sabor full love, in passion

Bebamos soul, ao som de quem somos
Sorvamos quem deitamos em dias inteiros
Algo mais em defensa ocasião, onde se escolhe o deleite
Sedução ou intensa borbulha
Meditação ou pretensa condução

Sem razão
Ou qualquer emoção
Num pedaço de carta escrita à mão
Rabisca, diria
Do fundo da alma maldita existe aliteração de nãos

Deve estar, sim, bem
Quando o amor acaba
Acaba também a crença da presença
Se se acreditou ir além algo mais que um dia
E do gosto que se buscava beber à luz do dia
À noite refutava-se descoberto

De alguma possível fuga a dois
Ver-se cárcere de pensamentos
Que se traduzem em sentimentos
Na solidão de si mesmo
  
Não se baste de tão imenso sozinho
Rancoroso e arredio desconjuro de amor invertido
Curtido em ódio mordido em travesseiro agudo

Quem desama se desata
Desarma-se
Acata o novo que passa rente aos olhos
Mais que um dia
E liberta o voo do pássaro
Que persiste na gaiola aberta
Por teimosia