Biografia de uma árvore.

"Legendar a conversa dos pássaros ao amanhecer, esticar o arame do violino, restaurar o som dos peixes com o veludo dos pés, acolher o elogio dos defeitos, prender em gaiolas os livros de leitura avoada, trocar mensalmente a terra do rosto, agradecer a quem te cumprimenta por engano, empregar as ervas como escolta das flores, desaparecer na visibilidade, interromper a sesta do vento, repor as telhas do fogo, esperar o porão subir com os frutos, conhecer-te na medida em que me ignoro, repetir os erros para decorar os caminhos, ressuscitar a brasa das cinzas, saber uma chama de ouvido, afiar a faca na compra para que seja leal na despedida, levantar atrasado, com a solidão ao lado, distanciar o desespero e alegrá-lo com a saudade, reverenciar o muro que nos permite imaginar uma vida diferente da nossa, escolher as melhores maçãs pelo assédio dos insetos, assobiar estrelas entre os telhados, partir os cabides ao arrumar as malas, pensar baixo para não ser escutado, avisar das falhas na calçada, seguir quem está perdido, gritar nos ouvidos da claridade até surgir relâmpagos, estreitar as vigas da face com a rede do riso, tragar o vapor do inverno na véspera de ser vidro, ter a infância assistida pelas parreiras, ser a primeira roupa do teu dia, nascer póstumo, identificar o corredor do hospital nos arbustos podados, correr na contramão do rio.

Desafiar as cigarras, desafinando mais alto, transpor a aparência do inferno, converter o ódio em curiosidade do amor, acelerar o passo para a névoa não encurtar o dia, arrancar do fruto o que voava do coração parado da ave, revezar com o pessegueiro a guarda da porta, jejuar para doar o sangue, enredar teus joelhos como forquilhas da fogueira, enervar a vela com um lance de olhos, cobrir com jornais a pedra fria, buscar um confidente fora da consciência, barbear a insônia com a lâmina dos seios, descobrir o irmão mais velho no silêncio do caçula, obedecer a intuição das dúvidas, abandonar teu corpo antes da luz depor o peso, morar no clarão exilado, respeitar o mar quando está rezando, curvar-se no violão como uma violeta cansada, compensar a forte dose da fala com os gestos, imitar a elegância de objetos esquecidos, espantar o pó com a lâmpada dos dedos, desfrutar do feriado das tranças, deixar a música se inventar sozinha, desperdiçar o fôlego fingindo trabalhar, ouvir o sol de noite, segurar no braço da cerração para atravessar a rua, procurar minha voz em outros autores, retribuir o aceno das sobrancelhas, presenciar da janela a palestra da chuva, espreguiçar a camisa dormida de espuma, eleger tristezas para concorrer com as tuas, puxar a cadeira na saída (e observar tuas pernas roçando a toalha da mesa).

Engolir de volta as palavras que te agrediram, cortar a artéria de um beco e sangrar a saída, medir a altura do poço com uma moeda, entender que meus livros são parecidos comigo (demoram a fazer amigos), verificar o pulso da madeira, desconfiar das superstições confiando nelas, achar no pesadelo um quarto para dormir, conservar a imagem da casa quando criança, arder como um musgo na soleira da porta, descer o fecho do vestido e vestir o quarto, caminhar com a sandália de teus lábios, ajustar o cavalo na cintura da estrada, rebobinar o pulmão com a asma, morrer tentando não morrer, golpear o tambor com a força dos pés, compreender sem concordar, combinar encontros e desencontrar-se consigo no meio do trajeto, desistir de compor o diário porque não existe segredo quando escrito, anotar na agenda as reuniões que não quero ir, apiedar-se da vocação fúnebre do guarda-chuva, falir na memória preservando a imaginação, acautelar-se das paredes velhas, o cimento armado, carregar o sobretudo como uma garrafa vazia, comemorar o que desconhecemos um do outro." (Fabrício Carpinejar)